Ageísmo em Tempo de Pandemia

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Temas da Longevidade

Ageísmo em Tempo de Pandemia


Recentemente falou-se e fala-se muito das consequências para os de mais idade da pandemia, das consequências de ser infectado e das sequelas do isolamento das pessoas, isolamento em casa, em quartos de casa, em quartos de lares ou em camas de hospitais. Sublinhou-se a solidão como mal pernicioso, mas não nos pareceu que fosse esse o mal maior, porque foi de isolamento e não de solidão que se tratou. Quando falamos de um preso não falamos da solidão do preso, falamos do seu isolamento. Isolamento associa-se a um estado compulsório, que não se limita a estar só, mas antes a ser privado de contactos a todos os níveis, até mesmo ou sobretudo a nível sensorial.

Recentemente, no tema “Não se deixe aperrear!” falamos das consequências de nos limitarmos e de perdermos parte de nós próprios, de deixarmos de ser quem éramos e das consequências físicas desse estado. O que aconteceu durante a pandemia por COVID-19 foi uma barbaridade que julgamos de muitas formas desnecessária, infligida a pessoas que não tinham como se defender ou auto-infligida pelos próprios com medo da morte. O medo não foi medo, foi terror! Medo de uma ameaça incerta e desconhecida, medo de não ter direito a cuidados, medo de sofrer e acima de tudo de morrer, que se misturavam nalguns sinais de ambivalência entre a depressão paralizante e negra, com desejo de morrer, ansiedade e medo da morte. Ouviram-se e ouvem-se exclamações como “só peço a Deus que me leve”, súplica abstrata referente ao desejo de parar de sofrer. Perdeu-se completamente a energia vital. A marcha, o equilíbrio, as dores, pioraram por inanição. Como diria um doente “dei um mergulho na velhice, como se caísse num poço”. O que lhes era oferecido de mais estimulante era televisão com discussões sobre a pandemia nos lares, o número de mortes dos mais velhos, o acesso ou não a cuidados médicos e as escolhas possíveis que se tinham de fazer sobre quem podia usufruir dos ventiladores.

Porque é que em nome dos contágios se isolaram brutalmente os mais velhos, remetendo-os a um vazio, sem lhes dar palavra, sem terem um interlocutor para partilhar angústias ou encontrar soluções que, prevenindo o contágio, não remetessem as pessoas para um estado que as marcará para sempre na sua saúde, no seu funcionamento mental.

Nalguns casos verificou-se esse cuidado com muito bons resultados, devolvendo alegria e dignidade às pessoas. Foram medidas simples, pequenas ideias que se organizaram no quotidiano, rotinas que se mudaram, mas que foi o suficiente para manter as pessoas vivas. A diferença estava mais na cabeça das pessoas que ajudam e cuidam do que na possibilidade de ter grandes meios.

 

Não são a vida, o respeito e a dignidade da Pessoa o mais importante?