O que aprendemos com as diferentes idades

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Temas da Longevidade

O que aprendemos com as diferentes idades


Há diferenças na saúde conforme a idade? Há. Então devemos olhar para cada período de vida de forma distinta nos vários momentos de vida? Aqui a resposta é sim e não. Há mais de vinte anos, quando me interessei pelo envelhecimento, percebi rapidamente que aprendíamos muito sobre a pessoa ao estudar a longevidade e os seus problemas específicos. Olhar atentamente para os problemas de uma pessoa mais velha faz-nos compreender a génese de funcionamento de sistemas e permite entender os mesmos. Se compreender o funcionamento e a organização que se processa na infância e adolescência nos permite entender o adulto e os de mais idade, o contrário também é verdade e isto para todas as áreas da Medicina. Mas, debrucemo-nos sobre o Sistema Nervoso Central e percebemos que a Depressão e Ansiedade têm características e vivências que permitem entender a pessoa noutros momentos de vida, as Doenças Degenerativas, como a Doença de Alzheimer, sua evolução e diferentes estadios dão-nos conhecimento sobre a construção do pensamento e comportamentos ao longo do processo de desestruturação. Esse saber alarga a forma como observamos a pessoa, tanto os mais novos como os mais velhos. Quando iniciei o meu trabalho de psiquiatra de adultos, foi da maior utilidade o trabalho complementar com crianças e adolescentes. Aprendi imenso e sobretudo com as situações difíceis das crianças autistas. O corpo é muito importante nos autistas. Expressam-se pelo corpo e a relação estabelece-se pela expressão corporal. Esta singular experiência fez-me descobrir a importância do corpo não só nas crianças, mas também nos adultos. O corpo era tabu e só se valorizava a palavra e a linguagem como forma de expressão do pensamento e das emoções, o que era negligenciar uma parte importante da pessoa. Abordar a longevidade volta a recolocar questões importantes sobre o corpo, que não conseguimos perceber sem esta experiência de observar e relacionarmo-nos com os mais velhos. Se pensarmos bem o corpo é a sede das maiores mudanças pessoais ao longo de todo o processo de vida. Entender a pessoa na longevidade dá uma perspectiva diferente no entendimento nas outras fases de vida. Conseguimos compreender melhor uma criança, um adolescente, um jovem adulto ou um adulto? Conseguimos. O conhecimento do que é o abandono, a rejeição, a perda, a importância de um projeto de vida, a consciência de nós mesmo, o sentimento de pertença, a incapacidade de transmitirmos o que sentimos e pensamos são, entre muito outros, aspetos que adquirem no envelhecimento uma tonalidade diferente que nos faz olhar para o sofrimento de outra forma. Somos uma mesma pessoa que se modifica de forma dinâmica ao longo da vida, por isso se tivermos um olhar transversal do quem é essa pessoa reparamos que olhamos como para um caleidoscópio onde as peças são as mesmas, mas apresentam-se diferentemente de momento para momento. Percebi quanto tenho aprendido com as pessoas de mais idade que acompanho. Ajudaram-me a conhecer melhor os mais novos.

 

A longevidade não nos permite conhecer melhor ao longo de todas as fases da vida?