Ter uma doença não é estar doente

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Temas da Longevidade

Ter uma doença não é estar doente


 

Estar doente é diferente de ser doente. Todos nós já estivemos doentes, ou seja tivemos um problema de saúde, mas este problema não nos invadiu a nossa vida e não impediu de a vivermos. Ser doente implica justamente que a nossa vida é de tal forma limitada pela doença que não podemos desfrutar dela.
Mas somos nós, que na maioria dos casos passamos do estado de ter um problema de saúde ao estado de sermos doentes e permitimos que os outros nos olhem como doentes. Ou seja pode não ser uma condição objetiva, mas é um estado subjetivo. Podemos contestar este ponto de vista dizendo que a diferença subsiste entre uma doença aguda e uma crónica, mas tal não é verdade, pois há quem se multiplique em problemas agudos e adquira o estatuto de doente, e ao invés, há quem sofra de um problema de saúde toda a vida e saiba viver bem com ele.
Socialmente e até no ambiente hospitalar ou medicalizado, o ser um doente conduz a muitos sentimentos ambivalentes, alguns muito nefastos, como a pena que desencadeia compaixão, mas também desvalorização dessa pessoa.
Na longevidade acontecem mais problemas de saúde do que nos mais novos, mas estes problemas não têm que conduzir essa pessoa ao estatuto de doente, mesmo que se possa atribuir erradamente ao envelhecimento o estatuto de doente. Ter uma ou mais doenças não é necessariamente ser doente.
A doença, e particularmente a doença mental, podem acarretar atitudes preconceituosas e práticas discriminatórias para a pessoa e é o próprio que o deve combater combatendo a ideia desvalorizada de que é um doente. A “demência” é o paradigma do envelhecimento, correspondendo à situação clínica de que as pessoas têm mais medo na Longevidade. A “demência” é erradamente conotada com ideia de perder o juízo. O nome a isso conduz e é ele próprio marca de estigma. Por isso se abandona este termo, porque mesmo quando há limitações cognitivas como na Doença de Alzheimer, durante muito tempo, se a pessoa for bem acompanhada, pode e deve ter uma vida participativa e inclusiva, contrariando a ideia fatal de que já não há nada a fazer.
Recusar ser doente não é negar a doença. Ao contrário, sabemos que a doença existe, está lá, e temos de estar conscientes de que a temos para poder estar conscientes das limitações e aderir aos tratamentos, bem como sabermos lidar o melhor possível com ela, para não sermos doentes.
Há, no entanto uma situação clínica que contraria esta perspetiva e que é sintoma da Doença de Alzheimer. A Anosognosia é a incapacidade cognitiva para que uma pessoa tenha a perceção e consciência de que está doente. É diferente da recusa da doença porque é uma limitação cognitiva, não uma atitude psicológica.

Deixo por fim esta questão “será que recusar o estatuto de doente não é a melhor forma de vivermos com uma doença?”