Luto

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Temas da Longevidade

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Mais de cinco milhões de mortos no Mundo pela pandemia de COVID-19. Perder custa muito! Perder amigos, perder família, perder sonhos, perder liberdade, perder o que nos custou a ganhar, perder partes de nós, tudo isso dói! Que não nos digam para não sofrermos, para não chorarmos, se temos de sofrer, se temos de chorar. A tristeza é necessária e faz parte da vida.

Quantos de nós nos entristecemos recentemente, durante a pandemia, por sentirmos a perda, a morte de alguém que nos era próximo, a impossibilidade de acompanhar essa pessoa antes dela partir, de lhe suavizar o sofrimento, de aliviar as diferentes formas de dor, de estar ali para transmitir segurança e conforto a quem sozinho se confronta com a morte, a impossibilidade de viver o ritual da despedida e em partilhar com outros essa tão grande tristeza. Mas, não foram só as mortes daqueles com quem tínhamos um vínculo afetivo que representaram as perdas, por vezes nem foram as perdas maiores. O desmoronar de relações afetivas significativas, o fim de amizades, com o confronto com o irreparável, que podem ser mais difíceis de resolver do que a aceitação da morte. O isolamento com implicações na vida pessoal, a perda de trabalho ou simplesmente ter deixado de trabalhar, também são perdas e como tal podem representar processos de luto, apesar de usarmos mais este conceito para a perda de pessoas.

No caso da pandemia devemos acrescentar à dor que decorre da perda as excepcionais condições ambientais que podem transformar a situação de perda em trauma, com proporções tais, que pode chegar a desenvolver um síndrome de stress pós-traumático semelhante aos das pessoas que passaram por situações de guerra.

O luto é um processo normal que passa pela dor, com preocupação tanto pela pessoa que morreu, como pelo processo de morte. Pode ser vivenciada e exteriorizada de várias formas, com sentimentos diversos desde incredibilidade da perda, sentimentos de revolta e culpa, até ao desejo de morte. O problema não é o que se pode sentir no momento, é antes a persistência destes sintomas por períodos longos de tempo, digamos mais de um ano.

O luto elabora as perdas, aceita-as e transforma-as em riqueza interior, em amadurecimento. Mantemos memórias e saudade de quem perdemos, mas conseguimos evocar a pessoa sem tristeza. Quando o luto não se resolve desta forma e persiste com sintomas próprios dos momentos subsequentes à perda, ou até agravados, então falamos de luto patológico ou complicado, o que representa uma doença.

Quantas pessoas que sofreram perdas estão em processo de luto, com dificuldade em saírem dele, e isto em qualquer idade, manifestando-se de formas diferentes e às vezes silenciadas. Ouço-os em Consulta, mas na maior parte dos casos só depois de inquiridos. São anos de sofrimento que ocultam e não querem aceitar que o que começou por ser um processo natural passou a patologia, com consequências que vão muito para lá do estado de humor.

Dito isto é difícil prever quais as consequências da pandemia, que se podem estender por anos.

Lembre-se de que o sofrimento psíquico é um processo inerente à condição humana, não é uma fraqueza, mas quando se instala precisa de ser tratado. Por isso coloco esta sugestão, deixe-se ajudar e peça apoio quando é necessário.