Quem sou eu? Quem és tu?

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Histórias da Longevidade - Esquecemo-nos de nós!

Quem sou eu? Quem és tu?



A minha consulta de Psicogeriatria no Hospital era muito concorrida, às vezes difícil de gerir, porque havia doentes mal referenciados ou com enganos. A consulta era feita em equipa, tinha vários procedimentos e tinha de ser muito bem estruturada para dar resposta aos doentes, obrigando a uma dinâmica a que a instituição não estava habituada. Nesse dia, particularmente concorrido, apareceu um doente de maca, vindo do Alentejo, trazido pelos Bombeiros e acompanhado pela família. A situação em si era espalhafatosa porque aquela maca, com bombeiros e acompanhantes, alterava completamente o estado da sala de espera, com constrangimento para as restantes pessoas que aguardavam. Era uma primeira consulta e fui informado que o doente não andava, nem falava, pelo que tinha de o observar na maca. Tal situação estava fora de questão porque não há razão para observar doentes em maca, salvo raras excepções, e priveligio sempre a consulta em face a face. A consulta é sempre com a pessoa que merece sempre um contacto direto, mas é frequente a relutância ou até oposição, que subentende que um doente com dificuldades cognitivas, da memória ou outras, não tem capacidade para falar de si. Mas, então como é que o observamos?

Dei indicação para passarem imediatamente o paciente, que se chamava Luís, para uma cadeira de rodas e para retirarem a maca, o que aconteceu, afinal, sem dificuldade. Quando chamei o doente entrou o Sr. Luís, a mulher Joaquina e a nora Ana. Mulher e nora começaram imediatamente a falar, antes mesmo de lhes por questões, comentando que Luís não falava há quase dois anos e tinha perdido o andar. Mesmo depois de eu começar a falar com o doente, continuaram a falar de forma cúmplice entre elas, desdenhando a minha iniciativa de falar com Luís. Perguntei de que terra era, e ele imediatamente respondeu. A terra tinha um nome curioso e por isso deixei sair uma exclamação de espanto jocosa e indaguei onde ficava. Luís não reagiu à minha graça, mas começou a explicar onde ficava a terra. Joaquina e Ana suspenderam a conversa delas, voltaram-se para ele e exclamaram “mas ele fala!” e de seguida começaram a perguntar-lhe de rajada “quem sou eu?”; “como é que me chamo?”; “quem és tu?”. Luís não lhes respondia e ora ficava calado, ora respondia de forma lacónica às minhas perguntas. As duas mulheres ficaram alvoraçadas como se tivessem sido apanhadas numa mentira, chegando a comentar “até me deixas ficar mal vista!”.


breves comentários


A desvalorização e infantilização de uma pessoa mais velha por outra, mas sobretudo por quem é próximo ou lhe presta cuidados é mais comum do que parece e sentida de forma muito agressiva. Encerra em si um cunho paternalista, podendo apresentar-se como uma aproximação afetuosa, mas que é em si depreciativa e faz ressaltar a incapacidade da pessoa em causa. Este é um problema que observamos nos prestadores de cuidados que inadvertidamente estão a lesar as pessoas que cuidam. Compreender a pessoa que temos diante de nós é importante até para a forma como a tratamos. Compreender a pessoa passa por perceber a sua identidade, e devolver identidade a uma pessoa vulnerável é primordial para a fazer sentir-se mais senhora de si.

A perda da posição de prestígio de Luís e a sua entrada num processo progressivo de adoecer é dramaticamente agravada pela forma desvalorizada como o tratam, onde não só o infantilizam, como sublinham a sua incapacidade com perguntas básicas. Se atentarmos à personalidade e ao processo depressivo e de doença do Sr. Luís, tal como é descrito na história “Gostar de si”, percebemos como este tratamento da família o deixa humilhado, revoltado e só, ao ponto de deixar de falar à família. Esta sua atitude conduziu a um erro de diagnóstico, mas ela mesma pode vir a desencadear terreno para eclodir uma doença degenerativa. Este doente não desenvolveu uma doença de Alzheimer, mas não deixou de vir a padecer mais tarde de compromisso cognitivo por doença vascular.


Conclusão   


Se subestimarmos o outro vamos conseguir percebê-lo como pessoa?